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A Pandemia Ainda não é um Portal

Artigo de Neal Gorenflo publicado originalmente na Shareable em 27.04.2020 e como capítulo do ebook gratuito Lesson's From the First Wave que retrata lições da primeira fase de pandemia.

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Tradução por Tiago Giordani - tiago.giordani.translator@gmail.com

Portões  vermelhos no tempo de Fushimi Inari-taisha, em Quioto, Japão
Portões vermelhos no tempo de Fushimi Inari-taisha, em Quioto, Japão. Esses portões, chamados de Torii, marcam a entrada para o sagrado e a separação do profano. Créditos: wallpaperflare.com

No início do mês de abril de 2020, o romancista indiano Arundhati Roy publicou um ensaio amplamente compartilhado intitulado “A Pandemia é um Portal”. É um relato sincero de como a Índia respondeu à crise com um tratamento detalhado e sensível dos desafios e perdas humanas naquela região. Entretanto, é o título metafórico e excitante que se eleva acima dos detalhes do ensaio para capturar nossa imaginação – a pandemia é um portal, um caminho para um mundo melhor.

Eu entendo o impulso de agarrar-se a entender uma metáfora que resume a pandemia, atribuindo significado a ela, e que até mesmo sugere que nós façamos o melhor uso dela. É um momento extraordinariamente desorientador e doloroso. É também verdadeiro que com a crise vêm a oportunidade. E, para ser justo, Roy está longe de ser único na indústria da fabricação de metáforas que surgiu logo após o início da crise. A pandemia foi comparada a uma guerra, nação, cisne negro, punição, iniciação e provavelmente muito mais.

Entretanto, nós devemos ter cuidado com o papel que as metáforas têm.

Aqui está o perigo. Metáforas direcionam nossa atenção para certos aspectos do que está sendo definido e para longe de outros. Assim, elas podem influenciar a maneira que agimos. Por exemplo, compare a pandemia à guerra – provavelmente a metáfora mais usada. Em primeiro plano, expressa a necessidade de uma resposta em escala nacional. No fundo, pode permitir a supressão de liberdades civis como em tempos de guerra, que são desnecessárias durante uma crise de saúde pública.

Metáforas são também um atalho conceitual, uma heurística caso você queira. Elas colocam o assunto, qualquer que seja, em um pacote conveniente e memorável. Detalhes e nuances são eliminados no processo. Elas nos permitem entender mais facilmente (ou interpretar mal) o assunto e depois o colocar de lado. Com o desafio intelectual resolvido, podemos seguir em frente.

Por mais útil e inevitavelmente humana que seja essa tendência, algo fundamental está nos faltando.

Eu acredito que é dever de cada um de nós sermos testemunhas diligentes quando o sofrimento é tão profundo e generalizado como é hoje.

Para ver claramente o que está acontecendo ao nosso redor com olhos não envernizados por esta ou aquela metáfora. Para ver novamente, com “o olho original”, não mais aceitando “as coisas em segunda ou terceira mão” como diria Walt Whitman. Além disso, para absorvê-lo com todos os nossos sentidos, senão todo o nosso corpo.

Para testemunhar o enorme número de mortos em todo o mundo e o impacto devastador sobre os entes queridos deixados para trás.

Para sentir a dor lancinante da perda que nunca vai embora, apenas desvanece, quando ela atinge nossas casas.

Para ver sistemas de saúde invadidos enquanto bravos enfermeiros e médicos morrem por falta de equipamentos de proteção. Para ser o cuidador que vai trabalhar mesmo assim, com medo de morrer.

Para assimilar a devastadora perda de empregos, negócios, lares e economias – todas as coisas pelas quais trabalhou-se incansavelmente.

Por estar injustamente à margem econômica e agora arriscar ser empurrado para fora. Estar sem um abrigo para se abrigar no local.

Para suportar o isolamento social por meses, ansiar pelo toque, ser privado das mesmas coisas que nos tornam quem somos – nossos relacionamentos e comunidades.

Para segurar uma criança que chora por não ter amigos para brincar. Para ser aquela criança solitária.

Para sentir uma grande perda de segurança e liberdade. Por ser ancião ou já estar já doente e perder ainda mais.

Para sentir e ver nos outros o sofrimento psicológico. Saber que as linhas diretas de prevenção de suicídio lutam com um volume recorde. Para ser um voluntário tentando falar com uma pessoa após a outra e aliviar suas dores.

Para testemunhar longas filas nos bancos de alimentos nos EUA, saber que a fome está visitando muito mais pessoas pelo mundo afora do que normalmente. Por estar em uma fila por comida, estar com fome.

Para contar as formaturas perdidas, casos de amor paralisados, férias canceladas, casamentos adiados e memoriais virtuais em nossas vidas e nas vidas de outras pessoas.

Para ver trabalhadores de mercearias, depósitos, entregas e outros serviços essenciais servirem a todos enquanto morrem desproporcionalmente pelo vírus. Para ser um desses trabalhadores que não podem faltar ao trabalho.

Para viver em uma comunidade vulnerável que impacta mais forte do que a maioria e mais uma vez sofrer danos que se aprofundam nas linhas de raça e classe.

Para ver algumas das nações mais ricas do mundo fracassarem espetacularmente em proteger seus cidadãos, montar uma resposta coordenada e cooperar com outras nações. Para viver em uma dessas nações.

Para ver alguns líderes usando da crise para conseguir ainda mais poder quando eles já têm demais.

Por outro lado, ver a bondade, o cuidado e a cooperação crescerem nas bases via mundo afora como nunca visto anteriormente. Para fazer parte desta revitalização da humanidade.

Para ver os voluntários fazerem uma incrível variedade de suprimentos e equipamentos médicos para atender à escassez.

Para se maravilhar com a explosão de criatividade social à medida que as pessoas encontram novas e seguras formas de se conectar tanto on-line como off-line, desde festas virtuais a até óperas nas varandas. Para participar!

Para sentir a terra fresca ao fazer jardinagem ou para deitar-se na grama em um parque, enquanto muitos não têm essa chance.

Para sentir o cheiro do ar fresco, ver as montanhas claramente pela primeira vez em décadas, observar os coiotes vagando pelas ruas da cidade e ouvir os pássaros cantarem onde o tráfico antes uivava.

Para ver mitos sobre nós mesmos, nossos países e nosso mundo despedaçados enquanto novas possibilidades surgem.

Se é um momento tão importante, não devemos nos apressar para resumir a pandemia e seguir em frente. Se é uma oportunidade tão rara de mudança de sistemas, não devemos nos precipitar para instrumentalizá-la, mesmo que seja para o bem comum. Se é para ser verdadeiramente unificador, vamos nos colocar no lugar das muitas pessoas que sofrem e que respondem de maneira diferente de nós.

Nossa resposta corre o risco de ser superficial se não absorvermos a tudo isso, deixarmos que nos amoleça e prossigamos com presença, ao invés da ânsia crua de apenas seguir em frente.

Eu digo para deixar tudo derramar sobre nós. Não lute contra o opressor, deixe-o abrir nossos corações. Qualquer que seja o mundo que fizermos após o rescaldo, somente se beneficiará de nossa crescente compaixão. Qualquer portal para um futuro melhor deve ser pavimentado com pedras de cuidado. O cuidado que temos uns com os outros agora pode moldar nosso futuro mais do que qualquer outra coisa.

Portanto, a pandemia ainda não é um portal. Mas pode se tornar um se testemunharmos com diligência, abrirmos nosso coração e atendermos ao chamado para cuidarmos.

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